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Doutora em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba / UFPB, Mestre em Ciências das Religiões/UFPB, Especialista em Gestão Pública pelo Instituto Federal da Paraíba/IFPB e Bacharel e Licenciada em Filosofia e em Ciência da Religião. Pesquisadora do grupo Epahey! Grupo de pesquisa sobre religiões afro-brasileiras (CNPq-UFPB) e membro do Núcleo de Pesquisa em Religiões Africanas e Afro-brasileiras, da Universidade Federal de Juiz de Fora (CNPq-UFJF). Parecerista de diversas Revistas Acadêmicas e Servidora Pública Federal do IFPB - Instituto Federal de Educação da Paraíba. Atua ainda como Produtora Cultural e ex- colunista do Blog Política Por Elas e atual colunista do site jornalístico Fontes e Fatos. Publicou vários capítulos de livros além dos livros "Maracatu à paraibana: no baque virado das encruzilhadas" e "Ethos, Educação e Serviço Público: uma tríade basilar" - Premiado no Edital Hermano José, na categoria Obras literárias, da Lei Aldir Blanc Paraíba em 2021.

Ubuntu como uma prática constante para ressignificar a vida

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Por Regina Negreiros

Começando o novo ano pós  carnaval e um novo ciclo da existência, inaugurando a nova coluna depois de um período sabático sem escrever, pensei muito sobre qual mensagem deveria trazer nesse início de ciclo. Por isso, resolvi começar falando de um sonho que tive lá atrás, talvez há uns cinco anos, onde ouvi a frase seguinte: “o ciclo não é a vida que se renova; o ciclo é o próprio homem”. Não vi quem me disse a frase e nada mais lembro, apenas isso. Para mim, a frase propõe uma profunda inversão filosófica na compreensão do tempo, da existência e da agência humana. Longe de ser uma mera reflexão poética, essa formulação encontra suas raízes na Filosofia Africana do Ubuntu, oferecendo uma perspectiva radicalmente coletiva e ativa sobre o conceito de renovação, demarcando a diferença entre uma visão estática e uma visão dinâmica e centrada no ser humano do que é o ciclo da existência, retirando a passividade da experiência humana e conferindo ao indivíduo, na coletividade, a agência total sobre o processo de renovação.

Na perspectiva Ubuntu, o ciclo é o processo de humanização constante. O ser humano não é um ser estático, mas um Ser-Sendo em contínuo desdobramento. O ciclo é, portanto, a própria atividade de se tornar mais humano, o que só é possível na relação dentro da coletividade. A renovação, nesse sentido, é a reafirmação diária da humanidade através da solidariedade, da empatia e da interconexão. Nesse sentido, o indivíduo é convocado a ser o agente ativo de sua própria renovação. Cada manhã, cada interação, cada tarefa é uma nova volta do ciclo que ele, como ser humano, está ativamente criando e sustentando. O ato de humanização, por sua vez, está relacionado a renovação da vida cotidiana, o que significa, em essência, renovar o compromisso com a humanidade. Isso se manifesta em atos simples, na prática do Ubuntu: ouvir com atenção, praticar a empatia, reconhecer a dignidade do outro e agir em prol do bem-estar coletivo.

Diante de tais questões eu me pergunto: o que distingue as pessoas dos animais? Nós somos pessoas, mas nos enquadramos no reino animal também, no entanto, somos ditos animais racionais. E somos denominados de seres humanos por nossa racionalidade. Mas nossa racionalidade é desenvolvida na medida em que nós crescemos, que nós nos tornamos seres humanos. E tornar-se ser humano exige uma lapidação constante do ser, que se dá apenas e tão somente dentro de uma coletividade, porque somos seres comunitários e não somos humanos sozinhos. E para essa lapidação ser perfeita em relação a uma humanidade, nós precisamos, dentro dessa coletividade, honrar nossa ancestralidade, os que vieram antes de nós, os que conosco dividem o espaço coletivo atual e os que virão depois. É exatamente por isso que precisamos tornar sempre o mundo um lugar melhor, plural e de partilhas, de modo que a nossa humanidade se perpetue através dos outros. E isso vale, não apenas para as pessoas, mas também para todo ser vivente. Tudo aquilo que tem vida e tudo aquilo que faz parte da vida, seja humano ou não-humano.

É preciso compreender, portanto, que nós precisamos, dentro dessa coletividade, ter uma ética que nos permita respeitar o outro, agir com alteridade e empatia com humanos e não humanos e entender que somos parte de um mundo plural e de subjetividades diversas. Compreender isso nos torna seres capazes de pensar a vida, de pensar o outro, de pensar a nós mesmos através e com o outro. E isso nada mais é do que Ubuntu, que é o conceito da filosofia africana que foi traduzido popularmente como “eu sou porque você é”, ou “eu sou porque nós somos”, mas em sua apreensão mais profunda, significa humanidade, significa que nos tornamos humanos com o outro e através do outro. Ou seja, dentro dessa coletividade, a perspectiva de humanidade nos é dada pelo outro. Ela nos é dada dentro de uma coletividade, porque ninguém é humano sozinho. Sozinhos somos apenas seres viventes.

Diante dessa perspectiva sobre Ubuntu, conclui-se que a humanização não é um estado fixo, mas uma jornada diária de renovação que se manifesta na nossa capacidade cotidiana de agir com afeto, solidariedade e empatia, reconhecendo que a nossa identidade individual está intrinsecamente ligada à identidade da coletividade e que minhas ações impactam diretamente o outro, pois a nossa humanidade é construída e reafirmada através do outro e com o outro, de modo que a construção da humanidade é um processo que se alicerça em conexões e redes de partilha, orientadas por uma ética da ancestralidade, na qual se inserem, conforme dito anteriormente, os que vieram antes de nós, os que conosco dividem o espaço coletivo atual e os que virão depois. Essa é, sobretudo, uma pedagogia que nos ensina a viver coletivamente a nossa pluralidade, ressignificando o sentido de ser humano. A humanidade, nessa perspectiva, é percebida como plural, diversa, ancestral e biocêntrica, e a construção das subjetividades ocorre através da energia vital que nos conecta.

Essa compreensão holística acerca do Ubuntu nos impulsiona a uma ética da alteridade, que se estende para além das relações humanas, abrangendo também o respeito e o cuidado com todos os seres viventes e com o mundo que habitamos. Honrar a nossa ancestralidade, cuidar do presente e preparar um futuro melhor para as próximas gerações torna-se, assim, um compromisso fundamental de cada um de nós. Cada ato de humanização, por mais simples que seja, contribui para a perpetuação de uma existência mais digna e plural para todos, buscando o equilíbrio cósmico através de uma práxis coletiva para ressignificar a vida e a existência.

Aproveite a vid e pratique o Ubuntu diariamente. Que as palavras sejam ações e não se percam no vento. Que o ciclo da nossa existência valha a pena em cada momento.

 

Foto: Gerada por IA

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