Por Rejane Negreiros
Nos últimos anos, o Brasil experimentou a ascensão de um fenômeno político que desafiou as normas tradicionais da democracia liberal: o bolsonarismo. Caracterizado por uma retórica de oposição às instituições democráticas e ao establishment político, o movimento se insere em um espectro mais amplo de populismo e autoritarismo global. Inspirado por elementos do fascismo e pela lógica da antipolítica, o bolsonarismo configura-se como uma expressão contemporânea da crise de representatividade, apropriando-se de um discurso que visa deslegitimar as instituições e promover a ideia de que a política tradicional está corrompida.
A relação entre bolsonarismo e populismo é central para compreender sua resiliência. Operando através da criação de uma dicotomia entre o “povo” (cidadãos comuns, patriotas) e seus “inimigos” (elites políticas, imprensa, instituições), o movimento facilita a concentração de poder em uma liderança carismática. No entanto, o bolsonarismo transcende o populismo de direita ao carregar traços de fascismo, particularmente na sua relação com a violência simbólica, a glorificação da força e a negação da política. Essa negação, que se aproxima da “banalidade do mal” descrita por Hannah Arendt, manifesta-se na rejeição ao diálogo, na tentativa de silenciar opositores e na constante radicalização do debate público.
Bolsonarismo sem Bolsonaro: a estratégia nacional para 2026
À medida que o Brasil se aproxima das eleições de 2026, o bolsonarismo enfrenta seu maior teste de sobrevivência e adaptação. Com a prisão de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos por envolvimento em planos golpistas, o movimento precisou se reconfigurar. A estratégia atual revela uma transição de um populismo centrado exclusivamente na figura do líder para uma máquina política mais institucionalizada, embora mantenha sua essência disruptiva.
A escolha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como o candidato ungido pelo pai para a disputa presidencial de 2026 marca uma mudança tática significativa. Diferente da campanha orgânica e caótica de 2018, a nova aposta envolve uma estrutura profissionalizada, com recursos robustos do Partido Liberal (PL) e uma tentativa de aglutinar a direita, que hoje se encontra dividida entre nomes como Tarcísio de Freitas e Romeu Zema.
Apesar da ausência física de seu líder máximo, o bolsonarismo mantém sua base mobilizada através de uma estratégia de “presença simbólica” e vitimização. A narrativa de perseguição política e o embate contínuo contra o Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes, continuam sendo os motores que alimentam a militância nas redes sociais. A comunicação digital, aliás, prepara-se para uma nova fase: marqueteiros já projetam uma “guerra de Inteligência Artificial” para 2026, onde a produção de conteúdo de baixo custo e a disseminação de fake news continuarão sendo armas centrais para criar realidades alternativas e manter a sociedade em estado de convulsão.
Na Paraíba: extrema-direita busca o fortalecimento legislativo
Na Paraíba, a articulação bolsonarista reflete a diretriz nacional de priorizar o fortalecimento no Congresso e nas assembleias legislativas. A estratégia local já está desenhada com a chancela direta de Jair Bolsonaro, que, mesmo da prisão, orientou a formação da chapa majoritária no estado.
O desenho atual consolida o senador Efraim Filho (União Brasil) como pré-candidato ao Governo do Estado, tendo o ex-ministro da Saúde, Marcelo Queiroga (PL), como pré-candidato ao Senado. A liderança dessa articulação recai sobre o deputado federal Cabo Gilberto (PL-PB), recém-alçado à condição de líder da oposição na Câmara Federal, que atua como a principal ponte entre a militância paraibana e o ex-presidente.
A visita programada de Flávio Bolsonaro à Paraíba ainda neste mês evidencia a importância estratégica do estado para o PL. A meta não é apenas disputar o Executivo, mas atender à exigência expressa de Jair Bolsonaro: a construção de uma chapa forte de deputados estaduais e federais. Essa tática demonstra uma compreensão pragmática de que a sobrevivência do movimento a longo prazo depende do controle do Legislativo, espaço onde o bolsonarismo pode exercer pressão, travar pautas governistas e proteger seus aliados.
A ilusão do fim…
Por que será que o bolsonarismo sobrevive à prisão de seu líder? Ora, acreditar que a queda do líder desmantela a estrutura é ignorar as raízes profundas do fenômeno. O bolsonarismo opera como uma máquina azeitada de desinformação que modula comportamentos e cria realidades alternativas (NEGREIROS, 2022). Essa máquina não precisa de Bolsonaro livre para funcionar; a vitimização do líder preso serve perfeitamente como novo combustível.
Mas a máquina só funciona porque encontra terreno fértil. É aqui que a sociologia de Jessé Souza nos dá o diagnóstico preciso: o bolsonarismo é a expressão contemporânea da nossa “Elite do Atraso”. Ele oferece uma resposta psíquica a uma população historicamente excluída. Como Souza aponta em O Pobre de Direita (2024), a adesão das classes populares à extrema direita não é irracionalidade econômica, mas uma busca desesperada por reconhecimento e dignidade em uma sociedade que lhes nega cidadania.
O racismo estrutural e o ressentimento de classe são o cimento que une a elite econômica aos desprivilegiados que buscam alguém para se sentirem superiores. O bolsonarismo apenas organizou politicamente esse ódio histórico.
O desafio da democracia
Enquanto as instituições democráticas não oferecerem inclusão real e desarmarem essa bomba-relógio social, o bolsonarismo continuará existindo — com ou sem Bolsonaro. E é justamente nesse cenário que o desafio para 2026 se coloca: não como uma disputa meramente eleitoral, mas como uma questão civilizatória. Trata-se de garantir que as lições do passado recente sejam efetivamente aprendidas e que a sociedade brasileira consiga resistir à erosão de suas instituições por forças que, sob o manto da ordem, buscam a destruição do pluralismo democrático.