Por Rejane Negreiros
A janela partidária fechou, mas deixou escancarado aquilo que Brasília já naturalizou e a Paraíba parece ter absorvido de vez: partido virou instrumento. E instrumento, na política, se troca.
O feriado tem tudo, menos descanso. Há um reposicionamento político em curso — e com método.
Movimento simbólico — e que ajuda a entender o momento — é a saída de Tovar Correia Lima do PSDB rumo ao MDB. Não é um gesto isolado, é sintoma. O PSDB, que já foi eixo de poder nacional e referência na Paraíba, hoje funciona mais como ponto de partida do que de chegada. Tovar não sai apenas de um partido; sai de um projeto político que encolheu.
E quando um político experiente troca de legenda às vésperas da eleição, não é por impulso: é cálculo de sobrevivência. MDB, hoje, oferece capilaridade, tempo de TV, musculatura municipal — e, principalmente, perspectiva.
O que à primeira vista parece um rearranjo pontual, tornou-se, na verdade, padrão.
Do outro lado do tabuleiro, Luciano Cartaxo faz movimento igualmente ruidoso: deixa o PT e aterrissa no Republicanos. A justificativa é protocolar — “ampliar caminhos”, “construir pontes” —, mas o pano de fundo é cristalino: viabilidade eleitoral.
Cartaxo sabe que política majoritária e proporcional se ganha com estrutura, não com nostalgia. O PT, na Paraíba, tem densidade, mas não necessariamente oferece o melhor arranjo competitivo para todos os seus quadros. Ao migrar, ele não rompe com Lula — faz questão de dizer isso —, mas reposiciona seu projeto pessoal dentro de uma engrenagem mais pragmática.
É o manual da política contemporânea: ideologia flexível, estratégia rígida.
Um terceiro movimento — menos barulhento, mas estrategicamente mais sofisticado — que ajuda a fechar o desenho: Pollyanna Werton.
A ex-deputada, que vinha do PSB, oficializou filiação ao PP e chega com objetivo claro: disputar uma vaga na Câmara Federal dentro de uma engenharia eleitoral competitiva.
Mas aqui entra um dado político que muda o peso desse movimento: o PP, hoje, não é apenas mais um partido no tabuleiro paraibano.
É o partido de Lucas Ribeiro, que assumiu o Governo do Estado após a renúncia de João Azevêdo para disputar uma vaga no Senado. É também a legenda liderada por Aguinaldo Ribeiro e Daniela Ribeiro, dois dos principais articuladores políticos do estado.
Ou seja: Pollyanna não está apenas mudando de sigla — está se posicionando dentro de um dos polos reais de poder da Paraíba neste momento.
E isso importa. Tudo é calculado dentro de uma estrutura que combina máquina estadual, articulação em Brasília e estratégia eleitoral de bancada.
E aqui está o ponto que muita gente ainda subestima: Pollyanna não é coadjuvante. Ela carrega quase 500 mil votos de uma disputa recente ao Senado e uma trajetória consolidada como prefeita, deputada e gestora estadual.
Ou seja: não é só mais um nome buscando abrigo. É um ativo político sendo realocado — e agora dentro de um partido com estrutura robusta, protagonistas de alto capital político, densidade eleitoral e recursos, ou seja, ambiente efetivamente capaz de viabilizar sua chegada ao cargo pretendido.
Em resumo, temos o seguinte: Republicanos cresce com quadros competitivos; MDB se fortalece como alternativa de centro com capilaridade; PP, agora ancorado no governo e com liderança consolidada, passa a operar com estratégia agressiva de bancada; PSB começa a perder peças relevantes; PSDB segue desidratando.
Isso não é desorganização. É reorganização, que segue a mesma lógica nacional.
Mais de 80 deputados federais trocaram de partido na janela — não por ideologia, mas por viabilidade. O critério deixou de ser “onde eu penso parecido” e passou a ser “onde eu tenho mais chance”.
Na Paraíba, isso ganha uma camada adicional: a disputa por nominatas fortes.
A eleição proporcional virou engenharia fina. Não basta ser competitivo — é preciso estar no lugar certo, com os nomes certos, na conta certa. E Pollyanna entendeu isso antes de muita gente.
Aliás, há uma ironia silenciosa nesse movimento.
Pollyanna, que até pouco tempo defendia a unidade do campo progressista, agora se reposiciona dentro de uma estrutura mais ampla e pragmática. Não é contradição. É adaptação ao sistema.
Porque, no fundo, ninguém está mudando por vontade. Está mudando por necessidade.
A política deixou de premiar coerência isolada. Premia eficiência coletiva.
E isso leva a duas conclusões duras — mas reais. Primeira: Partido virou meio, não fim; Segunda: fidelidade perdeu valor frente à viabilidade.
A pergunta que se impõe não é mais quem mudou. É quem ainda não mudou — e por quanto tempo consegue sustentar isso.
Na Paraíba de 2026, o recado está dado. Quem não entender o tabuleiro, vira peça.