Por Regina Negreiros
Recentemente, um dos meus sete irmãos, o mais velho deles, partiu para outro plano de existência. Quis hoje trazer uma reflexão sobre essa partida à luz filosófica, trazer um alento, não apenas para mim, mas para todas as pessoas que perderam um ente querido, assim como eu. A morte do corpo não é o fim. Há algumas considerações que julgo serem importantes para uma reflexão que acaricie nossa alma com a esperança e confortem a nossa dor.
A tradição filosófica ocidental e africana pode nos ajudar a compreender esse rito de passagem que faz parte da vida, pois como diz a frase, que não sei a quem atribuir, mas que ouvi aos 16 anos em uma aula sobre o modernismo: “todo homem já nasce grávido da morte”.
O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (2015) argumenta que, sem a morte, dificilmente o ser humano teria começado a filosofar. A finitude, segundo ele, não é apenas um fim biológico, mas o limite que revela a natureza problemática da existência. Enquanto os animais vivem em um presente contínuo sem a angústia da finitude, o homem, dotado de razão, percebe a transitoriedade de todas as coisas, o que gera o “espanto metafísico”. Para o autor, a finitude atinge apenas a casca fenomênica (o indivíduo), enquanto o núcleo (a Vontade) permanece intocado.
A morte é, nesse sentido, uma correção para o erro da individuação, um retorno da Vontade ao seu estado original. A morte, portanto, revela que o apego à existência individual é um equívoco metafísico, pois o indivíduo é apenas uma manifestação passageira de uma vontade universal que não se importa com a preservação da forma particular.
Apesar do pessimismo, Schopenhauer oferece um consolo metafísico: a indestrutibilidade. Ele afirma que não devemos temer a morte como um aniquilamento total, pois nossa essência mais profunda (a Vontade) não pode perecer. O medo da morte advém da identificação equivocada do “eu” com o intelecto e o corpo, que são meros instrumentos da Vontade.
Um outro autor que traz importantes considerações é Nietzsche, que embora tenha iniciado sua trajetória como um “discípulo” de Schopenhauer, sua maturidade filosófica é marcada por uma superação radical do pessimismo schopenhaueriano, especialmente no que diz respeito à finitude e ao sentido da existência.
Nietzsche, embora aceite a premissa de que a existência é inerentemente trágica e desprovida de um sentido metafísico ulterior, propõe uma inversão completa. Em vez da negação, ele defende a afirmação incondicional da vida, inclusive em sua finitude e sofrimento. Este conceito é sintetizado no termo Amor Fati (amor ao destino), que é a sua fórmula para a grandeza no homem: “não querer nada de outro modo, nem para diante, nem para trás, nem em toda a eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda ocultá-lo […] mas amá-lo.” (Nietzsche, 2008, p. 52).
No pensamento nietzschiano, a finitude não deve levar ao niilismo passivo, mas ao “niilismo ativo”, onde a brevidade da vida intensifica a responsabilidade do indivíduo em criar seus próprios valores. Na obra Assim Falou Zaratustra, Nietzsche introduz a ideia da “morte livre”, que não é um lamento pela finitude, mas uma celebração de uma vida que foi vivida com tal plenitude que a morte se torna o selo final de uma obra de arte. Importante explicar que o niilismo passivo se refere ao vazio, a falta de sentido e propósito. Na perspectiva nietzschiana, pode-se afirmar está relacionado a uma libertação na qual o sujeito cria seus próprios valores.
A questão de divergência fundamental entre os dois autores aparece na doutrina do Eterno Retorno. Enquanto Schopenhauer via a repetição da vida como o ápice do horror existencial, Nietzsche transforma essa ideia no “peso mais seletivo” onde a pergunta é: se a vida tivesse que ser repetida infinitas vezes, você a desejaria novamente? Para Schopenhauer, a resposta seria a negação, pois a vida é dor. No entanto, para Nietzsche, a resposta seria o “Sim” sagrado, transformando a finitude temporal em uma eternidade de sentido através da vontade de potência.
Nesse ponto, faço uma ponderação. Meus trabalhos acadêmicos giram em torno da filosofia africana do Ubuntu, e não poderia deixar de trazer essa perspectiva que ressignifica a finitude de Schopenhauer e a afirmação de Nietzsche, transformando a morte em um elo de continuidade comunitária e ancestral.
Diferente da tradição ocidental, que muitas vezes foca no indivíduo isolado diante da morte, o Ubuntu parte da premissa de que ninguém é humano sozinho porque somos através uns dos outros. Assim sendo, a existência não é definida por uma consciência solitária, mas pela relação com outras existências, incluindo os ancestrais. Ou seja, no ciclo da existência do Ubuntu, a finitude não é o fim da vida, mas uma transição dentro de uma arquitetura de forças vitais. A morte é o momento em que o indivíduo se integra plenamente à ancestralidade, mantendo sua participação ativa na comunidade: “No Ubuntu, temos a existência definida pela existência de outras existências. […] A ancestralidade e a espiritualidade são os alicerces que permitem ao ser humano transcender a finitude através da coletividade.” (Negreiros, 2019).
No diálogo entre a filosofia ocidental dos autores citados e a filosofia do Ubuntu, pode-se inferir que Schopenhauer identifica a indestrutibilidade da essência, mas a vê como uma força cega e, muitas vezes, dolorosa. No Ubuntu, essa “essência” é personalizada e acolhedora: é a força dos antepassados que sustenta o presente. Já Nietzsche propõe o Amor Fati como uma afirmação individual e heroica da vida. O Ubuntu expande essa afirmação para o coletivo: amar o destino é amar a história do seu povo e a continuidade da vida através das gerações.
As religiões mediúnicas brasileiras, em especial as religiões afro-brasileiras e o espiritismo, funcionam como a ponte prática para a filosofia do Ubuntu. A mensagem de esperança, onde o Ubuntu encontra sua moldura ética. É a mediunidade uma ferramenta que permite a vivência do ciclo da existência, onde o diálogo com o “além” não é uma fuga, mas uma reafirmação da humanidade nos ciclos da existência, pois como disse na coluna anterior, “o ciclo não é a vida que se renova, o ciclo é o próprio homem”.
Nas religiões de matriz africana, a essência humana é compreendida através do conceito de ancestralidade. Para Nei Lopes, a morte nessas tradições não é uma ruptura definitiva, mas uma mudança de plano onde o indivíduo se torna um ancestral, continuando a influenciar e proteger sua comunidade: “A morte, na cosmovisão africana, é o rito de passagem para a ancestralidade, onde o ser se despoja do corpo físico para habitar o Orum, mantendo o vínculo sagrado com o Ayê (o mundo físico)” (Lopes, 2007).
Em relação a leitura espírita sob a ótica de Severino Celestino, o elo entre a angústia da finitude e a esperança espiritual é fortalecido pela análise das fontes sagradas. O autor utiliza a filologia para demonstrar que muitas das interpretações punitivas ou niilistas sobre a morte, nas traduções bíblicas, são equívocos linguísticos. Para Celestino, a mensagem original dos textos hebraicos e gregos aponta para a imortalidade da alma e a comunicabilidade entre os mundos, oferecendo um consolo racional que dialoga com o “espanto metafísico” de Schopenhauer.
“A análise dos originais bíblicos revela que a morte é apenas o sono do corpo, enquanto o espírito permanece em plena atividade e evolução, cumprindo a lei do progresso” (SILVA, 2015).
Portanto, meus caros e caras leitores/leitoras, a finitude, sob a ótica do Ubuntu, é o que nos torna humanos. É a consciência de que nossa vida é um fragmento de um ciclo maior que nos impele à ética e à solidariedade dentro da coletividade. Sendo assim, o ciclo da existência vale à pena quando cada momento é vivido em prol da harmonia coletiva, garantindo que, mesmo após a morte física, continuemos a “ser” através dos que ficam. Por isso, abrace quem você ama como se fosse o primeiro dia do resto de sua vida. Se despeça como se fosse o último, pois nunca se sabe o dia de amanhã.
A gente deve ser sempre caminho de amor e acolhimento, de empatia e afeto. É tudo muito breve. Julgar e brigar por coisas banais não nos acrescenta nada mais. Só levamos o que somos e o que fizemos aqui. Como vivemos é o que importa. Espalhar flores na vida é o melhor investimento pra ter e deixar boas memórias.
E aqui finalizo com a mensagem de que a morte chega para todos, somos apenas passageiros do trem. Podemos encarar como Schopenhauer, viver o amor fati de Nietzsche, mas viver a práxis do Ubuntu, plantando o bem e colhendo boas memórias, deixando flores e boas fotografias para sermos lembrados.
Meu irmão se foi, mas sua memória será lembrada e honrada como pede a filosofia do Ubuntu, na qual o respeito a ancestralidade é fundamental para o equilíbrio da energia vital, seja a nossa, do nosso coletivo familiar e de amigos ou de nossos ancestrais.
Vá em paz, meu irmão amado. O honraremos. E na perspectiva de Nietzsche, se a vida tivesse que ser repetida infinitas vezes, a resposta seria “Sim”, eu transformaria a finitude temporal em uma eternidade de sentido através da vontade de potência para viver de forma tão autêntica e intensa, que cada instante de sua vida se tornaria justificado por si mesmo, ganhando um valor absoluto e imortal, como se desejasse que aquele instante se repetisse para sempre. A vida continua de alguma forma.
Referências:
LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
NEGREIROS, Regina Coeli Araújo. Ubuntu: ancestralidade e espiritualidade na perspectiva de uma filosofia africana. 2023. Tese (Doutorado em Ciências das Religiões) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2023.
NEGREIROS, Regina Coeli Araújo. Ubuntu: considerações acerca de uma filosofia africana em contraposição a tradicional filosofia ocidental. Revista Problemata, v. 10, n. 2, p. 338-352, 2019.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação, tomo II. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2015.
SILVA, Severino Celestino da. Analisando as traduções bíblicas. 12. ed. João Pessoa: Ideia, 2015.