Regina Negreiros
Um dos melhores autores da literatura brasileira, ao meu ver, é Machado de Assis, especialmente em sua fase realista, cujo início se dá com a obra Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881. Esse período foca na análise psicológica, na ironia e na crítica social. Esta fase é caracterizada por digressões, metalinguagem, pessimismo e personagens extremamente complexos e ambíguos. Essa obra, cujo personagem principal é um defunto que narra sua vida e morte, tem um caráter psicológico profundo que traz à tona o egoísmo, a hipocrisia e a avareza humana.
Um dos trechos que jamais esqueço e que sempre reflito sobre ele em determinadas situações, consta no capítulo XVIII intitulado “Visão de Corredor”. Nele, Brás Cubas está viajando a cavalo para visitar sua amada Virgília. Em um momento de distração e pressa, ele acaba se envolvendo em uma situação embaraçosa na qual as cangalhas do seu cavalo se soltam e caem ao chão. Um homem simples que passava por ali naquele momento, interrompe seu caminho para ajudar Brás Cubas a reorganizar a carga e prender tudo novamente ao cavalo. É nesse momento que Brás Cubas entra em um monólogo interno sobre a gratidão e o preço dela. Logo após ser ajudado, ele sente um impulso de generosidade e pensa em dar uma moeda de ouro ao homem, o equivalente a cinco mil-réis. No entanto, ele volta a reconsiderar e começa a achar que é muito dinheiro e que o homem talvez não saiba o que fazer com tanto e que isso poderia até prejudicá-lo. Nesta perspectiva ele começa a diminuir progressivamente o valor que cai para dois mil-réis, depois para um mil-réis. Sua justificativa moral é que o ato do homem foi apenas um dever de cristão, algo natural que não deveria ser “pago” como um serviço comercial. Ao fim, ele sente que um simples “muito obrigado” sincero vale mais do que dinheiro, aperta a mão do homem, agradece calorosamente e segue viagem. Ele se convence de que fez o certo, pois o homem saiu com a “consciência limpa” de ter ajudado alguém por puro altruísmo, tendo ainda economizado seu dinheiro, mas a causa principal, justificava ele, era o altruísmo daquele homem. Essa, na verdade, é a maquiagem de seu argumento íntimo.
Na perspectiva do personagem, Brás Cubas observa as pessoas não como indivíduos com desejos e dores próprias, mas como instrumentos para seus prazeres, ou obstáculos para seus interesses. O dinheiro funciona como o grande equalizador dessa visão: ele permite que Brás ignore o sofrimento alheio, compre silêncios e justifique sua própria inércia moral. A análise machadiana nos mostra que o egoísmo diante das posses não é apenas sobre acumular, mas sobre usar o que se tem para desumanizar o outro e elevar a si mesmo. A objetificação ou a sua reificação é algo banal, comum no olhar realista dessa fase machadiana. Para Brás, o dinheiro e a posição social não são apenas meios de subsistência, mas ferramentas de mediação que definem quem merece sua atenção, sua “generosidade” ou seu desprezo, de acordo com suas necessidades e não com sua régua de conduta ético e moral (Cei, 2024).
Bem, desde que li essa obra, por volta dos meus 16 anos, fiquei intrigada e me apaixonei pela literatura realista machadinha. O que mais me chamou atenção, à época, foi a semelhança com a realidade que deixava para trás o romantismo idealista e a fuga da realidade características da fase da literatura romântica brasileira. Agora se apresentava diante de mim o mundo tal qual ele era, retratando a realidade sem idealizações e usando ironia para denunciar a hipocrisia humana. A obra encerrou a hegemonia do Romantismo e estabeleceu as bases de um realismo único, profundamente psicológico e tecnicamente revolucionário. Machado mudou o curso da literatura brasileira ao provar que era possível fazer uma literatura universal, técnica e profundamente crítica a partir da realidade local, olhando para dentro da alma humana a partir do olhar nu e cru da sociedade, estabelecendo um padrão de excelência que ainda hoje define o que há de melhor na nossa produção literária. E porque isso ocorreu? Machado trouxe as feridas da sociedade e as expôs de forma única e genuína. O personagem principal, Brás Cubas, que narra sua morte e também faz uma narrativa de como viveu, dedica aos vermes que roeram as frias carnes do seu cadáver, dedicando a estes as saudosas e póstumas lembranças, exibe traços fortes de um comportamento narcisista patológico (o termo não existia na época), desejando a glória e o reconhecimento. Suas relações são pautadas pelo que os outros podem oferecer à sua autoimagem, e sendo incapaz de se conectar genuinamente com a dor alheia, apresenta como traço de personalidade a falta de empatia, ou uma empatia seletiva que acolhe de acordo com seus próprios interesses.
Aqui peço já licença e também desculpas aos psicólogos e psicólogas por me intrometer no assunto, sou uma filósofa curiosa e que sempre gostou de ler livros de psicologia, especialmente na adolescência, fato que retomei o gosto muito recentemente, mas falar da leitura realista de Machado, pede que faça também essa leitura psicológica, mesmo sendo leiga e apenas curiosa sobre o assunto. O imaginário popular descreve o psicopata como alguém violento, mas diferente do psicopata do imaginário popular, Brás Cubas encarna a psicopatia funcional ou bem-adaptada através do charme superficial e manipulação, da ausência de remorso ou culpa. Possui uma racionalização cínica, além da impulsividade e irresponsabilidade. Ainda na seara da psicologia, há o conceito de Narcisismo Maligno que descreve a interseção entre o narcisismo, a psicopatia e o sadismo. O narcisista maligno por uma grandiosidade patológica e uma necessidade extrema de controle, manifestando-se através de falta de empatia, frieza afetiva e um prazer sádico em infligir dor física ou emocional ao próximo. Indivíduos com este perfil são altamente destrutivos e manipuladores, operando com uma ausência total de remorso ou culpa, o que os torna perigosos nas interações interpessoais e sociais. Esses traços combinados criam uma personalidade altamente disfuncional e perigosa, capaz de causar danos significativos a si mesma e, principalmente, aos que a cercam, sem qualquer percepção de erro ou responsabilidade (Kernberg, 1992).
Ao ler o personagem, percebe-se que Brás Cubas se encaixa perfeitamente, tendo em vista que ele é narcisista porque precisa ser o centro do universo; que tem traços psicopáticos porque ignora as leis morais e a dor alheia sem sentir culpa; além disso, tem traços sádicos sutis, pois sente um prazer intelectual em observar a degradação dos outros. De tal modo, pode-se concluir que essa é uma obra atualíssima e cuja leitura pode ajudar a ler a sociedade e o comportamento humano. Machado de Assis, portanto, não criou apenas um personagem doente, mas usou a patologia individual de Brás Cubas para diagnosticar uma patologia social. No contexto do Brasil do século XIX, o narcisismo e a psicopatia funcional de Brás eram protegidos e até incentivados pela estrutura escravocrata e elitista.
Eu reconheço Brás Cubas em muitas pessoas, mas ainda mantenho a esperança de que essas pessoas, doentes ou não, possam algum dia encontrar um ponto de apoio e regulação emocional que lhes tornem pessoas que reflitam sobre sua própria condição e buscando ajuda e mudança de perspectiva. Talvez esse seja um resquício da leitora das obras românticas e quixotescas da literatura brasileira, não têm como ter passado por elas sem ser tocada na alma de alguma forma. Talvez seja muito do meu lado esperançoso que alimenta meu Ubuntu. Mas, enfim, se você leu a obra, talvez passe a olhar de uma outra forma pra ela, caso não tenha lido, eu recomendo a leitura e a reflexão a partir dela. Machado foi um gênio que nos deixou um importante e imortal legado.
Referências:
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.. São Paulo: Todavia, 2023
CEI, Vitor. O narcisismo na psicologia filosófico-literária de Machado de Assis. Dossiê • Rev. Bras. Lit. Comp., 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rblc/a/bBSFX76dGT4dm88mk3kVPRL/?lang=pt
KERNBERG, O. F. Aggression in Personality Disorders and Perversions. Yale University Press, 1992. .Disponível em: https://share.google/HWB3A2NIV9vOWG3fK