Algumas nuvens
João Pessoa
Algumas nuvens, 25°C

Hoje
25 de maio de 2026

Rodrigo Freire é professor de Ciência Política e atual diretor do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da UFPB. Foi presidente da Comissão Municipal da Verdade de João Pessoa. Nesta coluna, promove reflexões sobre política, democracia e direitos humanos

Camarotti, leia Miriam Leitão – ou: “a questão-chave é a democracia”

Compartilhe

Foto: CBN Paraíba

OPINIÃO | Por Rodrigo Freire

Tive a oportunidade de assistir, na última sexta-feira, 22 de maio de 2026, as palestras do cientista político Felipe Nunes, do instituto de pesquisa Quaest, e do jornalista Gerson Camarotti, da Globonews. O evento foi parte do projeto “Abre Aspas”, promovido pela Rede Paraíba de Comunicação, afiliada da Rede Globo, e tinha como público parte importante da elite empresarial, jornalística e política do estado – incluindo o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, o governador Lucas Ribeiro e seu tio, o deputado Aguinaldo Ribeiro, o senador Efraim Filho, o ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, dentre outros. Além da palestra, pude desfrutar das gentis companhias da colega Fabiana Siqueira, vice-diretora do CCTA, e dos colegas Thiago Falcão (CCHLA) e Marcelo Rodrigo Silva (CCTA), que comandam a comunicação da UFPB. Em suma, sendo um popular, eu era um estanho no ninho.

Quem abriu a sessão foi Felipe Nunes. Sua palestra constituiu-se, principalmente, de uma apresentação competente do capítulo sobre ideologia e política do seu mais recente livro, “Brasil no Espelho”. Não se trata de um livro qualquer, mas de uma obra importante para a leitura da sociedade brasileira contemporânea. Em dez capítulos, o livro comenta os resultados de uma pesquisa de opinião, realizada pelo Quaest, entre novembro e dezembro de 2023, nos 26 estados da federação mais o Distrito Federal, sobre os valores dos brasileiros em matéria de política, comportamento, religiosidade e cultura, dentre outros temas igualmente relevantes. Quem encomendou a pesquisa foi a própria Rede Globo, que também publicou o livro de Nunes.

A grande inferência da pesquisa que foi explorada na palestra de Nunes foi que o brasileiro, na última década, tem se posicionado de forma mais clara na escala ideológica esquerda-centro-direita. Merece destaque, desde 2017, o crescimento daqueles que se dizem posicionados ideologicamente ao centro e à direita, enquanto manteve-se estável o percentual de pessoas que se posicionam à esquerda. Mais ainda, Nunes destacou como esse posicionamento se reflete na polarização política do país entre direita e esquerda, e que a preferência eleitoral nos dois candidatos presidenciais de 2026 que representam estes dois polos – que sejam, Flávio Bolsonaro e Lula – está basicamente cristalizada, com os eleitores de cada um dos candidatos mostrando pouca disposição de mudar seu voto.

É importante destacar que, como o próprio Nunes alertou na sua palestra, a pesquisa eleitoral que ele ora discutia havia sido feita antes da revelação do áudio em que Flávio Bolsonaro pedia dinheiro a e mostrava irmandade com Daniel Vorcaro, o banqueiro ultra-corrupto do Banco Master. Entretanto, a pesquisa do Datafolha publicada pela Folha de São Paulo no domingo, 24 de maio de 2026, confirmou a tendência à cristalização anunciada por Nunes, mostrando uma queda discreta de Flávio Bolsonaro na preferência do eleitorado – de 35% para 31%, – acompanhada de um igualmente discreto crescimento de Lula – de 38% para 40% -, o que levou Bruno Boghossian, diretor daquele jornal, a escrever que “o escândalo não causou mais do que um soluço dentro do núcleo mais bolsonarista do eleitorado, que costuma defender o clã mesmo em seus momentos difíceis”, o que parece ser correto, ao menos por ora. Ou seja, o combate à corrupção, tema que sempre apareceu de maneira evidente na retórica da direita brasileira, particularmente da sua variante golpista, não parece fazer parte das preocupações do eleitorado bolsonarista.

Encerrada a fala de Nunes, eu encaminhei-lhe uma pergunta, através de um formulário acessado por QR Code, que o papel de gatekeeping – ou de filtro, em jargão jornalístico – dos apresentadores da palestra não deixou ser respondida. O que questionei a Nunes foi como ele avaliava a evolução da taxa de adesão à democracia e ao autoritarismo no Brasil da última década. Sim, porque acho que este é o grande problema político do Brasil contemporâneo: o que explica que, após 40 anos de democracia, a adesão a valores autoritários e a relativização, simpatia ou o negacionismo histórico frente à ditadura militar esteja crescente? Pois se entendermos a democracia como um conjunto de instituições e como um modelo de sociedade, a adesão de parte expressiva da cidadania a valores autoritários, como visto no Brasil de hoje, representa um obstáculo dos mais duros à consolidação democrática. Esta questão, entretanto, não está presente na pesquisa encomendada à Quaest pela Globo e apresentada no livro de Nunes.

Aí veio a palestra do Gerson Camarotti. Para ele, a polarização entre direita e esquerda que o Brasil vive hoje está cristalizada, entre outras coisas, porque ela interessa aos líderes de ambos os polos, respectivamente, Bolsonaro e Lula. Camarotti afirmou ainda que, eleito por uma frente ampla com maioria de centro, ao assumir a Presidência em 2023, Lula não desceu do palanque, e seguiu estimulando essa polarização.

Fiquei imaginando se Camarotti se referia ao mesmo Lula que eu vi, de 2002 para cá, impondo ao PT um reposicionamento político ao centro, abrindo-se à concertação com todas as forças do campo político, desde que aceitassem o jogo democrático. Também me questionei se o sinal contra a polarização que Camarotti esperava de Lula seria a defesa da anistia aos golpistas do 08 de janeiro. Ou se Camarotti desejava que Lula sancionasse o infame PL da Dosimetria. Aliás, esses parecem os poucos sinais de pacificação política que o atual governo de Lula não adotou, porque até proibir manifestações oficiais sobre os 60 anos do golpe de 1964, para não interditar pontes com as elites militares, Lula assim o fez.

Residindo em Brasília desde o início da década de 1990, Camarotti se lembrou do Piantella, um famoso restaurante da capital, onde a elite política costumava confraternizar entre o final da década de 1970 e o início dos anos 2000. Reza a lenda que Ulysses Guimarães tinha mesa cativa no Piantella, onde costumava deliciar doses de poire, licor francês feito com pera, que acabou eternizado no refrão de uma música que Simone gravou em 1988, quando Sarney anunciava a “Ferrovia Norte-Sul”, e que representou uma espécie de crônica daquele período de ressaca da Nova República – “piuí, piuí, poire, poire, eu quero ver onde essa zorra vai parar”.

Naquele período, nas mesas do Piantella, às noites de terça a quinta-feira, após o encerramento das sessões do Congresso Nacional, sentavam-se lado-a-lado lideranças de oposição e de situação, conversando com cordialidade sobre as grandes questões nacionais. É desse período e dessa prática que as noites do Piantella representavam que Camarotti disse sentir falta.

Mas, vale a pergunta: por que essa prática de oposição e situação confraternizarem civilizadamente em uma mesa de um restaurante não é mais vista no Brasil de hoje? Polarização, há hoje como havia no período de transição à democracia, e como havia no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando Camarotti aportou em Brasília. Eu acredito que Camarotti sabe a resposta a essa pergunta, mas vou me atrever a tentar responde-la.

Em artigo publicado em 2025 no site Poder 360, o advogado Antônio Carlos Kakay, último dono do Piantella, afirmou: “o Piantella foi, sem sombra de dúvida, o retrato de uma época em que a sociedade reconquistou o Estado Democrático de Direito. A liberdade. A irmandade. O respeito às divergências. A política como instrumento civilizatório.”

Já o presidente Fernando Henrique Cardoso, no seu livro “A Arte da Política”, de 2006, resume com clareza o cenário: “A História contemporânea da política brasileira começa nos anos 1970, com as lutas pela volta à democracia. (…) A grande causa da minha geração não foi a da estabilização da economia. Nem tampouco a do desenvolvimento econômico. Foi a da democracia.” (pág. 14)

Esse era o clima que o Brasil vivia no período áureo do Piantella, de entusiasmo em torno de uma tarefa política elevada – a construção da democracia -, e era este clima que permitia o diálogo cortês entre divergentes da elite política numa mesa de restaurante. Nesse período anunciado por Kakay e Fernando Henrique, nas mesas do Piantella, Ulysses Guimarães e outras lideranças políticas conversaram sobre a Lei da Anistia; as Diretas Já; a eleição de Tancredo Neves; o retorno dos civis ao poder com o governo Sarney; a Assembleia Constituinte e a promulgação da Constituição de 1988; o impeachment de Collor; Itamar Franco, o Plano Real e a estabilização da economia; o governo de Fernando Henrique Cardoso e sua sucessão por Lula.

No campo da esquerda, uma das principais lideranças desse período de construção democrática e de diálogo entre desiguais foi o então deputado José Genoino (PT). Uma foto clássica, publicada no livro “José Genoino – Escolhas políticas”, escrito por Maria Francisca Pinheiro Coelho (2007) e tirada em 1993, durante o período da Revisão Constitucional, mostra Genoino junto a Luiz Eduardo Magalhães (PFL), Nelson Jobim (PMDB) e José Serra (PSDB). Nada mais representativo do que vou chamar de “clima do Piantella”.

 

No mesmo livro, Genoino narra um episódio dramático do seu largo período como parlamentar: o momento em que, nos anos 1980, encontrou o Major Sebastião Curió, também deputado federal, no Congresso Nacional. Anos antes, na década de 1970, Genoino e Curió haviam se encontrado em uma situação de conflito: enquanto Genoino era um guerrilheiro do movimento armado criado pelo PCdoB em resistência à ditadura militar na região do Rio Araguaia, o Major Curió foi um dos líderes da repressão militar a esta guerrilha, de onde poucos saíram vivos. Em contrário, a imensa maioria dos guerrilheiros do Araguaia foi assassinada pelo Exército, mesmo após serem presos com vida, e seus corpos estão desaparecidos até hoje. Inclusive, o Estado Brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2010 pelo desaparecimento forçado e tortura na repressão à Guerrilha do Araguaia. No citado livro, assim Genoino se refere sobre o episódio:

“Eu faço uma distinção entre a direita ideológica e direita não ideológica. E conviver com a direita ideológica não é problema nenhum, até porque a convivência pessoal, a convivência humana tem certa autonomia em relação à ideologia. (…) Eu acho que existem limites, por exemplo, (…) eu não tinha nenhum relacionamento com Curió. Fora de situações como essa, eu acho que você pode ter uma relação normal, de convivência pessoal com representantes da direita, com representantes do conservadorismo.” (pag. 310)

Em 2005, Genoino viveu outro episódio dramático no Congresso Nacional. Então presidente do PT, Genoino estava prestando depoimento à CPI do Mensalão quando adentrou à sala o então deputado federal Jair Bolsonaro, trazendo a tiracolo o coronel reformado do Exército Lício Maciel, que havia sido responsável pela captura de Genoino na Guerrilha do Araguaia. Não é preciso afirmar que o que seguiu a esta captura foi um largo período de torturas e de prisão para Genoino.

Hoje, Bolsonaro está preso por tentativa de golpe de Estado, após ter liderado um governo marcado, do início ao fim, por iniciativas golpistas e de afirmação de valores autoritários, incluindo o machismo, a misoginia, o racismo, e a negação da História e da ciência, com as consequências dramáticas associadas às taxas de contágio e de mortalidade no Brasil durante a pandemia. Mas, da prisão, Bolsonaro segue sendo a principal liderança de um grupo de ultradireita que tem como principal bandeira a destruição das instituições e dos valores democráticos a duras penas construídos pela sociedade brasileira desde a segunda metade da década de 1970.

Como esperar que seja possível que as atuais forças governistas reproduzam o “clima do Piantella” com um grupo político oposicionista que tem como principal propósito destruir aquilo que Fernando Henrique Cardoso anunciou como “grande causa” da sua geração, a construção da democracia? Quando Genoino disse que não via nenhum problema em “ter uma relação normal, de convivência pessoal” com o que chamou de “direita ideológica”, ele estava se referindo a uma direita que se comportava politicamente por dentro do campo da democracia. Este não é o caso das principais lideranças da direita brasileira atual, notadamente, seu maior líder, Jair Bolsonaro, agora representado eleitoralmente pelo seu filho Flávio Bolsonaro.

Ao igualar Bolsonaro e Lula, apontando-os como igualmente interessados na manutenção do clima de polarização que ora vive o país, Camarotti esqueceu de afirmar que, enquanto Bolsonaro é um líder autoritário, Lula é um democrata. E que, em nome da preservação da democracia, Lula construiu um terceiro governo de muita conciliação e de pontes com amplos setores da sociedade, o que levou Simone Tebet, uma liberal insuspeita, a afirmar: “aquilo que me assemelha ao que pensa o presidente Lula é infinitamente maior do que aquilo que me separa: a defesa da democracia, da soberania, dos valores, dos avanços em políticas públicas e dos direitos humanos. Agora, obviamente eu sou mais fiscalista e mais liberal na economia” (Folha de São Paulo, 28 de abril de 2026).

Esta fala de Tebet, de buscar convergências entre os desiguais em favor da preservação da democracia, ecoa claramente o “clima do Piantella”. E, mais ainda, deixa claro que o crescimento da identificação ideológica dos brasileiros com a direita, observado na pesquisa apresentada por Felipe Nunes, não seria um problema desde que a parte eleitoralmente mais expressiva dessa direita – o bolsonarismo – não estivesse comprometida, como está, com a destruição da democracia.

Em sua coluna no jornal O Globo de 21 de abril de 2026, a jornalista Miriam Leitão afirmou:

“Desde que levou, em 2018, um golpista ao poder, a democracia brasileira enfrenta uma luta existencial. (…) Um economista me disse que o problema dessa eleição é que nenhum dos dois principais candidatos está propondo fazer grandes reformas econômicas. Gostaria que fosse esse o dilema do Brasil. Mas estamos diante de uma questão muito maior. Se Flávio Bolsonaro apresentasse uma lista dos sonhos de reformas econômicas e demonstrasse insuspeita capacidade desse programa, ainda assim ele seria um perigo institucional”.

A grande clivagem da política brasileira atualmente, portanto, não é entre esquerda e direita: é entre democratas e autoritários. E não se sabe o porquê, mas isso não foi questionado pela pesquisa que a Globo encomendou ao Quaest.

Miriam Leitão está correta: a questão-chave é a democracia.

 

29 de maio de 2026

 

TV Fontes e Fatos

Mais lidas

Economia e negócios

Sine-JP disponibiliza 557 oportunidades no mercado de trabalho

A importância da filosofia para compreender e salvaguardar a democracia no Brasil

Governo do Brasil zera PIS/Cofins do diesel para proteger população da alta internacional do petróleo

Cícero Lucena lança programa Poupança Futuro, que garante auxílio financeiro a estudantes

Único sobrevivente de tragédia na Índia fala sobre queda de avião