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26 de maio de 2026

Doutora em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba / UFPB, Mestre em Ciências das Religiões/UFPB, Especialista em Gestão Pública pelo Instituto Federal da Paraíba/IFPB e Bacharel e Licenciada em Filosofia e em Ciência da Religião. Pesquisadora do grupo Epahey! Grupo de pesquisa sobre religiões afro-brasileiras (CNPq-UFPB) e membro do Núcleo de Pesquisa em Religiões Africanas e Afro-brasileiras, da Universidade Federal de Juiz de Fora (CNPq-UFJF). Parecerista de diversas Revistas Acadêmicas e Servidora Pública Federal do IFPB - Instituto Federal de Educação da Paraíba. Atua ainda como Produtora Cultural e ex- colunista do Blog Política Por Elas e atual colunista do site jornalístico Fontes e Fatos. Publicou vários capítulos de livros além dos livros "Maracatu à paraibana: no baque virado das encruzilhadas" e "Ethos, Educação e Serviço Público: uma tríade basilar" - Premiado no Edital Hermano José, na categoria Obras literárias, da Lei Aldir Blanc Paraíba em 2021.

O que você busca quando vai à igreja?

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OPINIÃO | Por Regina Negreiros

Recentemente falas toxicamente polêmicas de um certo Frei Gilson viralizaram na mídia e em redes sociais. O religioso, ao incitar o ódio e o preconceito, incita também a intolerância religiosa e segue na esteira dos preconceitos destilando absurdos. Esse é o primeiro dos motivos pelos quais resolvi escrever a coluna de hoje. O segundo motivo, foi a leitura de um texto falando sobre a não realização das tradicionais festas juninas em uma comunidade do Rio de Janeiro dominada pelo narcopentecostalismo. O texto da Revista Carta Capital (2024),  afirma:

De tradição secular, as festas juninas, quase sempre associadas às paróquias católicas e estendidas em intenso calendário de eventos que avança ao mês de julho, costumam movimentar os bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro. Neste ano, contudo, inusual silêncio prevaleceu nas comunidades sob o domínio do Terceiro Comando Puro, facção criminosa “convertida ao Evangelho”, nas palavras de um de seus líderes, o narcotraficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão.

Esses fatos nos revelam que há muito a ser pensado no campo das religiões e religiosidades, mas essas reflexões precisam ser feitas de modo subjetivo e individual, compreendendo que os desdobramentos da intolerância e do fundamentalismo religioso traz consequências profundamente graves para a coletividade, sobretudo, em relação ao adoecimento social e a desumanização do outro.

No ano de 2025, com base em dados do Disque Direitos Humanos – Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e em notícias veiculadas na mídia, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas um total de 2.774 denúncias de intolerância religiosa no Brasil. As religiões de matriz africana continuam sendo as mais atingidas pela intolerância religiosa no Brasil, concentrando os maiores números de denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o que demonstra o quanto o racismo estrutural está enraizado profundamente na sociedade brasileira.

Voltando um pouco nos anos anteriores, entre 2021 e 2024, o crescimento das denúncias de intolerância religiosa foi de 323,29%,  conforme o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Segundo a Agência Brasil (2025), no ano de 2024, foram realizadas “2.472 denúncias de casos de  intolerância religiosa pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100)”. O mais preocupante é que esse “número representa uma alta de 66,8% em relação às denúncias deste tipo feitas em 2023 (1.481). São quase 1 mil denúncias a mais em 2024”.

Importante perceber que grande parte dos ataques às religiões de matrizes afro-brasileiras são oriundos de pessoas que se dizem religiosas, na maioria das vezes, são fundamentalistas religiosos; pessoas intolerantes e que acham que a sua religião é a única que traz em si uma verdade e a salvação. No entanto, não bastasse os “freis gilsons” da vida e  a intolerância dos crédulos de antolhos, eis que surge a categoria dos narcopentecostalistas, traficantes evangélicos que usam a religião na briga por territórios, especialmente no Rio de Janeiro.  Diante dessa questão, eu me pergunto: o que você busca quando vai à igreja? Se fizermos a pergunta a uma pessoa que frequenta uma igreja de qualquer denominação religiosa, certamente a resposta será: a salvação, a cura, a paz, a comunhão com a deidade ou algo assim. No entanto, nem todas as pessoas, dentro das igrejas, estão em busca desses retornos da fé.

Voltando ao trecho da Carta Capital destacado anteriormente, o fechamento das igrejas católicas e o impedimento da realização das tradicionais festas juninas ocorrem em todos os espaços dominados pelo chamado “complexo de Israel”. No caso relatado, as tradições passam a morrer por inanição e por opressão de uma facção criminosa que se denomina evangélica e que, em momentos anteriores, agiu de forma similar com os terreiros de religiões afro-ameríndias e afro-brasileiras. Na região, conforme imagens de reportagens diversas, é possível ver bandeiras de Israel pintadas nas paredes das casas, além de uma brilhante estrela de Davi cravada no alto.

O narcopentecostalismo recebe esse nome porque, além da perseguição religiosa aos terreiros, e agora as igrejas católicas, há a associação criminosa destes grupos com alguns pastores para a prática da lavagem de dinheiro do tráfico e envio de armas e drogas para todo o complexo. Além de tudo isso, segundo a reportagem da Carta Capital (2024) “a atuação de Peixão e seu bando representa uma nova faceta do crime organizado no Rio, na qual o tráfico passa a adotar práticas de milícias, como venda de botijões de gás e distribuição de tevê a cabo, além do discurso alinhado à extrema direita”.

O complexo de Israel fica na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na expansão de seu domínio, o criminoso Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido por Peixão, e a facção denominada Terceiro Comando Puro, controlam a venda de drogas na área que tem cerca de 134 mil habitantes. Convertido ao pentecostalismo evangélico, Peixão, em alusão ao peixe enquanto antigo símbolo cristão, impõe a religião que ele acredita, e seu exército, denominado exército do Deus Vivo, tem assassinado, com requintes de extrema crueldade, quem se contrapõe ao líder narco-evangélico. O domínio dessas facções se traduz em atos de intolerância religiosa que vão além da perseguição a religiões de matriz afro-brasileira, estendendo-se também à religião católica.

Todos esses fatores expõem o quanto à democracia e à laicidade estão em risco frente à dominação desses grupos que se associam a lideranças e políticos pentecostais, representados, no Congresso Nacional, pela conhecida bancada da bala. Uma afronta ao Estado democrático de direito através da imposição de uma teocracia em detrimento da pluralidade e da diversidade religiosa e cultural! Mas não apenas isso: uma afronta à humanidade, à dignidade e à vida quando há a prevalência, nesses espaços, da violência contra as muitas formas de existência, e do tráfico que desumaniza e ceifa a vida, principalmente de pessoas pobres, pretas e periféricas.

Depois da leitura do texto em questão, tornei a me perguntar sobre o que querem as pessoas quando procuram uma igreja. Pelo “fio da meada”, estas igrejas evangélicas fundadas e dirigidas pelo tráfico, não buscam a salvação para alguém, nem a satisfação de fazer o bem, muito menos à cura ou paz para a comunidade e as famílias que nela vivem. Parece óbvio, mas diante do absurdo crescimento desses grupos fora das fronteiras das facções cariocas, é bom deixar bem explicado o que estas igrejas buscam: a dominação e a subjugação de outros grupos, sejam religiosos ou não, para preponderar a sua hegemonia e fazerem prosperar seus espúrios comércios de armas e drogas. Essa é a perspectiva que se percebe ao observar o “fio da meada” no entorno dessas igrejas e seus “pastores”.

Além disso, a análise dessas circunstâncias e dos dados nos revela que a intolerância religiosa no Brasil não é apenas um problema de preconceito individual, mas também uma questão complexa que se entrelaça com o racismo estrutural, com crime organizado e com o controle territorial. O narcopentecostalismo representa uma nova e perigosa dimensão da intolerância, onde a fé é instrumentalizada para justificar a violência e a dominação, impactando severamente a liberdade religiosa e a diversidade cultural do país.

Gostaria de deixar explícito que não estou fazendo crítica a religiosidade de ninguém, mas, diante de todo esse cenário, vale a pena refletir sobre a seguinte  questão: o que as pessoas  procuram nessas igrejas? Vão por vontade? Pela prosperidade no ilícito legitimado pelos grupos dominantes, ou será que creem de fato nesse Deus que trafica, mata, oprime etc, em nome da religião? Deixo aqui uma questão que julgo fundamental para a compreensão dessa mazela que tem crescido desmesuradamente em nossa sociedade e alavancado consigo a violência social e política, além do racismo estrutural  contra a diversidade, a laicidade,  liberdade e a democracia.

 

Referências:

ALMEIDA, Daniella. Intolerância religiosa: Disque 100 registra 2,4 mil casos em 2024. Empresa Brasileira de Comunicação – EBC. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-01/intolerancia-religiosa-disque-100-registra-24-mil-casos-em-2024. Acesso em 01 Dez 2025.

THUSWOHL, Maurício. Bandidos de Deus: após expulsar praticantes de religiões afro-brasileiras, traficantes evangélicos passam a perseguir também os católicos. Revista Carta Capital, 18.07.2024. Disponível em:  https://www.cartacapital.com.br/sociedade/bandidos-de-deus/. Acesso em 01 Dez 2025.

 

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