OPINIÃO | Por Cassi Szabo
Sempre fui fã de Shakira e confesso que, mesmo sem assistir ao show, fui inevitavelmente atravessada por ele. Na minha bolha, as redes sociais foram tomadas por recortes: vídeos, falas, imagens da multidão na Praia de Copacabana. E foi ali, mediado pelas telas, que o espetáculo se revelou para mim não apenas como entretenimento, mas como um fenômeno político, de gênero e de mídia.
Porque é disso que se trata.
O show não aconteceu só no palco. Ele aconteceu, sobretudo, nas redes. E é nesse ambiente que seu sentido se amplia. Ao mesmo tempo em que a Prefeitura do Rio de Janeiro investe em grandes eventos para projetar a cidade, movimentar a economia e ocupar o debate público com iniciativas como o “Todo Mundo no Rio”, a pergunta que fica é: quando é “todo mundo”, quem está sendo representado. E por quem?
Shakira respondeu à sua maneira.
Ao evocar as mulheres, especialmente as mães solo, e tensionar estruturas como o patriarcado, ela desloca o show para além da música. Transforma-o em uma plataforma de identificação e reconhecimento. Em um país onde 10.321.771 lares são chefiados por mulheres que vivem apenas com seus filhos, segundo o Censo 2022 do IBGE, esse gesto não é apenas simbólico. É profundamente político.
Não por acaso, uma de suas músicas mais recentes virou trilha dessa narrativa. “Las mujeres ya no lloran, las mujeres facturan” não é só um verso. É um slogan contemporâneo que traduz autonomia, ruptura e reposicionamento feminino em linguagem pop, facilmente apropriável pelas redes.
Nas redes, isso se traduz em circulação.
Os trechos mais compartilhados não são apenas os de performance, mas os de fala e de mensagem. São esses momentos que ativam pertencimento, geram debate e, inevitavelmente, produzem incômodo. E o incômodo, hoje, também engaja. Ele amplia o alcance, prolonga a conversa e mantém o tema vivo na disputa de narrativas.
Não é a primeira vez que isso acontece. Quando Lady Gaga mobilizou debates públicos a partir de suas performances, especialmente em temas ligados a gênero, sexualidade e liberdade de expressão, vimos uma reação imediata, inclusive entre setores evangélicos, e a apropriação dessas narrativas por atores políticos, tanto à direita quanto à esquerda. O palco transbordou para o campo ideológico.
Com Shakira, a lógica se repete, adaptada ao contexto e ao tempo.
O que vimos foi um evento que operou em duas camadas ao mesmo tempo. Mobilizou a cidade fisicamente e ocupou o ambiente digital simbolicamente.
No fim, talvez a principal lição seja essa. O “Todo Mundo no Rio” pode até ser o nome do projeto, mas, na prática, o que está em jogo é quem consegue transformar presença em voz e visibilidade em disputa.
E, nesse jogo, artistas como Shakira não apenas se apresentam. Elas posicionam.