OPINIÃO | Rejane Negreiros
As imagens da Paraíba nos últimos dias — ruas submersas, cidades isoladas, famílias desalojadas — não são apenas o retrato de uma tragédia climática. São, sobretudo, um diagnóstico político.
Há um erro recorrente no debate público brasileiro: tratar eventos extremos como fatalidades naturais. Não são. A chuva é um dado da natureza. O desastre é uma construção social, e, portanto, política.
O que se vê hoje na Grande João Pessoa e no interior do estado é a convergência de três vetores que a ciência política já conhece bem: mudança climática, desigualdade estrutural e falha de governança.
O primeiro vetor é o climático e já não é mais objeto de disputa séria. A literatura internacional e os dados empíricos indicam uma alteração no regime de chuvas: menos previsibilidade, maior intensidade e concentração em curtos intervalos. Traduzindo: chove menos vezes, mas quando chove, chove muito mais. Isso muda completamente a equação da gestão urbana.
Mas é o segundo vetor que transforma risco em tragédia. No Brasil, e a Paraíba não é exceção, a ocupação do território segue uma lógica socialmente desigual. Quem pode, mora longe do risco. Quem não pode, ocupa encostas, margens de rios, áreas sem drenagem adequada. É a geografia da desigualdade. E ela não é espontânea, é resultado de décadas de ausência ou insuficiência de política habitacional, planejamento urbano e regulação fundiária.
O terceiro vetor fecha o ciclo: governança. Quando a água invade casas, interrompe abastecimento, derruba pontes e isola comunidades, o que está em colapso não é apenas a infraestrutura física. É a capacidade do Estado de antecipar, prevenir e responder. E isso envolve decisões políticas acumuladas ao longo do tempo: investimento (ou a falta dele), prioridade orçamentária, coordenação entre entes federativos, capacidade técnica e continuidade administrativa.
A resposta emergencial, que agora mobiliza governo estadual, prefeituras e União, é necessária, mas ela atua na superfície do problema. Distribuir abrigo, restabelecer serviços, liberar recursos: tudo isso é indispensável, mas não altera a lógica que produz a vulnerabilidade.
E aqui entra um ponto sensível do debate político: o Brasil ainda opera com uma cultura reativa em relação a desastres. Age depois. Reconstrói depois. Indeniza depois. Mas planeja pouco antes.
Não se trata apenas de recursos. Trata-se de prioridades e de capacidade institucional. Sistemas de drenagem compatíveis com eventos extremos, políticas habitacionais que retirem populações de áreas de risco, zoneamento urbano baseado em critérios técnicos, integração de dados meteorológicos com planejamento territorial. Tudo isso exige coordenação de longo prazo, algo raro em ciclos políticos marcados por mandatos curtos e incentivos imediatistas.
Há também um componente federativo relevante. A gestão de riscos climáticos no Brasil é fragmentada: municípios são responsáveis pelo ordenamento urbano, estados atuam na coordenação regional, e a União entra com financiamento e reconhecimento de emergências. Na prática, isso frequentemente gera sobreposição de responsabilidades e lacunas de execução. Quando a crise chega, o sistema precisa correr para se organizar.
Enquanto isso, o impacto social segue um padrão previsível: atinge mais quem tem menos.
Não é coincidência que os desabrigados e desalojados estejam concentrados nas áreas mais vulneráveis. Não é coincidência que o colapso do abastecimento de água afete de forma mais aguda bairros periféricos. Não é coincidência que comunidades rurais fiquem isoladas com maior facilidade. Isso não é aleatório. É estrutural.
Do ponto de vista econômico, o efeito também é regressivo. Pequenos comerciantes perdem estoque, trabalhadores informais perdem renda, agricultores sofrem com perdas imediatas. O custo da reconstrução recai, em grande medida, sobre quem já tinha menos capacidade de absorver choques.
O que a crise na Paraíba revela, portanto, não é apenas um evento extremo. É um modelo.
Um modelo de urbanização que não incorporou o risco climático.
Um modelo de política pública que reage mais do que antecipa.
Um modelo de desenvolvimento que distribui desigualmente os custos das crises.
E isso nos leva a uma conclusão incômoda: episódios como este tendem a se repetir. Não porque a chuva será sempre igual, mas porque as condições que transformam chuva em desastre permanecem.
A mudança climática impõe uma nova realidade. A pergunta central deixa de ser “se” eventos extremos vão ocorrer, e passa a ser “como” os sistemas políticos e institucionais vão responder a eles.
No caso brasileiro, a resposta ainda está em construção e, até aqui, chega sempre depois da água.