Por Cassi Czabo
O que poderia ser lido como mais um passo importante na luta contra a violência à mulher no Brasil acabou se tornando mais uma polêmica, principalmente, nas redes sociais. A proposta do PL da Misoginia (896/23), que busca enquadrar atitudes como interromper, constranger ou deslegitimar mulheres como formas de misoginia reacendeu um debate antigo e revelador.
Mas o que mais chama atenção não é a reação de homens. É a de mulheres. Entre críticas que classificam a ideia como “exagero” ou “mimimi”, surge uma pergunta incômoda:
por que mulheres também rejeitam medidas criadas para protegê-las?
Durante anos, interromper uma mulher ou diminuir sua fala foi tratado como algo normal. E quando algo vira normal, deixa de ser questionado.
Nem toda violência é explícita, como bem pontuou o sociólogo Pierre Bourdieu. Existe uma forma mais silenciosa, que se sustenta justamente por parecer comum. Por isso, quando uma proposta tenta dar nome a essas situações, muita gente não reconhece, estranha.
Outra reação frequente é o distanciamento: “isso nunca aconteceu comigo”. Mas essa leitura é individual, e que ignora o contexto coletivo. Além do que nasce dessa falta de percepção, uma vez que algumas mulheres relativizam a própria violência ou abuso sofrido.
Uma explicação para isso vem do fato de que muito do que entendemos como comportamento feminino é aprendido. Ou seja: muitas mulheres foram ensinadas a relevar, se adaptar, não reagir. Quando algo tenta mudar essa lógica, pode soar como exagero ou ameaça.
Há também quem veja esse tipo de proposta como um risco: de conflito, de exagero, de “não poder mais falar nada”. Esse medo revela uma tentativa de preservar uma ilusão de equilíbrio, ainda que desigual. O patriarcado não é sustentado só por homens. Ele também é reproduzido por mulheres, muitas vezes sem perceber.
Para muitas mulheres, força sempre significou suportar. Apenas deixar pra lá, em nome de uma falsa paz que sempre cobrou um preço alto. Por isso, reconhecer certas situações como violência pode parecer fraqueza quando, na verdade, é o contrário: é consciência.
Chamar essas mulheres de “erradas” não resolve porque, muitas vezes, não se trata de discordar da experiência, mas de nunca ter tido linguagem para nomeá-la. No fim, o debate não é só jurídico. É cultural.
Enquanto o que nos diminui continuar sendo chamado de “normal”, qualquer tentativa de proteção sempre vai parecer exagero.