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26 de maio de 2026

Rodrigo Freire é professor de Ciência Política e atual diretor do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da UFPB. Foi presidente da Comissão Municipal da Verdade de João Pessoa. Nesta coluna, promove reflexões sobre política, democracia e direitos humanos

Contra o fascismo, afirmar a democracia como valor universal

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Donald Trump | Crédito: Facebook/Reprodução

Por Rodrigo Freire

O ano de 2026 começou virado para trás. Já no dia 03 de janeiro, uma operação militar dos Estados Unidos, ordenada pelo presidente Donald Trump, invadiu a Venezuela, e capturou o presidente do país, Nicolás Maduro, junto com sua esposa, Cilía Flores. Os seguranças do presidente foram assassinados pelos militares invasores, e o casal foi capturado e levado clandestinamente para os Estados Unidos. Após algumas horas de ausência de noticias sobre o paradeiro de Maduro, foram divulgadas imagens dele algemado e vendado em um avião militar dos Estados Unidos. No dia seguinte, Maduro foi exibido algemado em uma van policial, em Nova York, numa posição de humilhação pública.

A Venezuela é um país cindido. Segundo dados da ACNUR, a agência da ONU para refugiados, mais de 5 milhões de venezuelanos deixaram seu país até 2025, buscando refúgio principalmente em países da América do Sul, como o Brasil. “Todas as revoluções resultaram em diásporas”, me lembrou recentemente um jovem politicamente posicionado na esquerda radical. É verdade. Mas, não estamos aqui falando necessariamente dos aristocratas russos que saíram do seu país após a Revolução de 1917, nem dos muitos “Marcos Rúbios” cubanos que, endinheirados, se exilaram em Miami. Basta olhar as ruas de João Pessoa e ver os indígenas warao que tiveram que sair do seu país fugindo da fome, e em busca de esperança. Mas é importante lembrar que tampouco existem democratas entre os grupos mais relevantes da oposição venezuelana, dispostos a construir uma alternativa política que combine bem-estar social, distribuição de riqueza e renda e afirmação da soberania nacional. A divisão da Venezuela não aponta para uma solução democrática interna da crise política que impulsiona a crise humanitário-migratória.

Mas, este não é o ponto. O que impressionou negativamente o mundo democrático foi que a invasão ilegal e violenta de um país soberano, a Venezuela, por uma superpotência militar e econômica, os Estados Unidos, é um total desrespeito às regras do direito internacional e ao sistema da ONU, que tem como princípios basilares a solução pacífica dos conflitos e o respeito à autodeterminação dos povos e à soberania nacional. A ONU foi criada após a 2ª Guerra Mundial com o propósito de livrar a humanidade do flagelo da guerra, e de contribuir com um futuro fundado na paz e na afirmação dos direitos humanos. A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos é a negação desse ideal pacifista e humanista. E, assim agindo, Trump afirma-se como um imperialista despudorado, inimigo da paz e da democracia.

Na madrugada do dia 22 de março, Cuba enfrentou seu segundo apagão nacional em uma semana. A crise energética de Cuba é histórica, e está relacionada às suas próprias condições geográficas e escolhas políticas. Mas o que existe agora é resultado do endurecimento, por ordem de Trump, do bloqueio econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos desde os anos 1960. Tal endurecimento impede a chegada a Cuba de navios com petróleo, principal combustível para a geração de energia naquele país. O objetivo de tal endurecimento é dito com clareza pelo próprio Trump: derrubar o regime cubano, em mais uma atitude imperialista. Mas, antes de atingir o governo, o apagão impõe sofrimento ao povo de Cuba – e, quando mais pobre for a pessoa, maior tende a ser o sofrimento ao qual estará exposta. Sem energia elétrica, falta transporte, falta água, não se pode trabalhar, não funcionam hospitais nem escolas. Os cidadãos cubanos, por consequência da ordem de Trump, estão impedidos de viver com segurança mínima, sendo atingidos diretamente no exercício dos seus direitos humanos mais elementares.

Sim, o regime cubano não é exemplo de respeito a direitos humanos. Mas sempre garantiu educação e saúde públicas aos seus cidadãos e, nos últimos anos, vivencia um processo de abertura econômica que se distancia do seu antigo controle estatal-autoritário sobre a economia, aos moldes do “socialismo real” de matiz soviético. Tudo isso está sendo impedido de se realizar pelo acirramento do bloqueio, imposto por Trump.

Trump é um inimigo da democracia e dos valores democráticos, inclusive, do seu próprio país. Em declaração da última semana, Trump classificou o Partido Democrata, seu adversário, como o “maior inimigo” dos Estados Unidos, classificando essa legenda liberal como um partido da “esquerda radical”. O imperialismo de Trump é a negação absoluta da cultura da paz e dos direitos humanos que inspirou a criação do sistema da ONU, e que inspira os ideais democráticos contemporâneos. Em contrário, Trump é uma liderança que representa a retomada do espírito e da cultura política do fascismo na contemporaneidade. Não é o único.

Em setembro de 2023, o cineasta israelense Amos Gitai publicou um artigo na revista piauí, onde retratava com certo otimismo a situação da oposição democrática e progressista ao governo de Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel. Tal como Trump, Netanyahu é outro líder mundial de ultradireita, este grupo político que tenta minar a democracia por dentro das próprias instituições democráticas. Já em outubro de 2023, o Hamas, grupo militante palestino baseado na Faixa de Gaza, realizou um ataque terrorista contra civis israelenses, reunidos em uma rave ou quando estavam em suas residências, em um kibutz. O resultado foi uma resposta violenta do governo Netanyahu contra o grupo terrorista, que atingiu toda a Faixa de Gaza, sem poupar a sua população civil. Continuada até hoje, a agressão militar de Israel tem provocado um genocídio da população palestina, inviabilizando a vida civil em Gaza, e tornando o terror e a morte como um estado permanente para a população agredida. Sim, a orientação do atual governo de Israel, liderado por Benjamin Netanyahu, traz o mesmo ethos do fascismo que vitimou judeus durante a 2ª Guerra Mundial.

No final de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel, juntos, iniciaram um ataque militar contra o Irã. Mais uma vez, a população civil tem sido a principal vítima. Já no primeiro dia do ataque, uma escola foi bombardeada pelos militares norte-americanos, deixando 165 mortes – a maioria, crianças. No dia 27 de março, a ONU condenou veementemente tal bombardeio, cobrando responsabilidade dos Estados Unidos por esta grave ofensa aos direitos humanos.

Antes, em 25 de março, a mesma ONU aprovou resolução que declara o tráfico e a escravização de africanos foi o mais grave crime contra a humanidade. Proposta por Gana, tal resolução teve o voto contrário de apenas três países: Estados Unidos, Israel e a Argentina. Não à toa. Nosso vizinho portenho tem mostrado um alinhamento automático em assuntos internacionais com os Estados Unidos e Israel desde a chegada de Javier Milei à presidência. Mas a questão vai além. Milei é mais uma das lideranças mundiais da ultradireita contemporânea que atentam contra a cultura da paz e dos direitos humanos. Entre as marcas do seu governo, estão o ataque a direitos sociais e trabalhistas e aos múltiplos avanços da Argentina na superação do seu passado autoritário, que garantiram memória, verdade e justiça para as vítimas da sua ditadura militar. Nesta semana que completaram os 50 anos do último golpe militar na Argentina, Javier Milei e seu governo preferiram reafirmar o negacionismo histórico sobre a ditadura militar. Mas também não é o único.

Nas eleições realizadas em dezembro de 2025, o Chile elegeu um presidente de ultradireita, José António Kast, político com um histórico de elogios à ditadura militar liderada naquele país por Augusto Pinochet. Filho de um migrante alemão filiado ao Partido Nazista, Kast é um católico conservador que promete “linha dura” no combate à criminalidade e que se notabilizou pelas suas posições misóginas, como se opor à pílula do dia seguinte e à permissão ao aborto em casos de risco à saúde da mulher, inviabilidade fetal e estupro, que no Chile são permitidas por lei.

Em fevereiro de 2026, o Brasil, junto com o México e o então governo do Chile, presidido por Gabriel Boric, apresentaram a candidatura à secretaria-geral da ONU de Michele Bachelet, ex-presidente do Chile que tem larga experiência internacional, já que também foi Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos e Diretora Executiva da ONU Mulheres. Na declaração conjunta de apoio a Bachelet, os governos do Brasil, do México e do Chile reafirmaram sua crença na ONU como o “principal espaço para o diálogo e a construção de soluções coletivas em matéria de paz e segurança internacional, desenvolvimento sustentável, promoção e proteção dos direitos humanos e ação para reverter a mudança do clima”, reafirmando seu “compromisso com o multilateralismo como pilar fundamental para uma governança global baseada na cooperação internacional e no respeito à autodeterminação dos povos”. Esta semana, poucos dias após assumir a presidência, Kast retirou o apoio do Chile a Bachelet, que segue com sua candidatura, agora, respaldada apenas pelo Brasil e pelo México.

O cenário político internacional, portanto, é dos mais complexos, e a batalha que está sendo travada é semelhante ao que o mundo viveu até 1945. De um lado, estão os valores civilizatórios fundados na paz, na convivência democrática entre os povos e no humanismo. Do lado oposto, estão os valores autoritários do fascismo. Findando a terceira década do século XXI, lamentavelmente, a luta política que está posta é, mais uma vez, entre civilização e barbárie.

A principal liderança do campo fascista, atualmente, é Donald Trump. Já no campo democrático, é Lula o ator político internacional de maior relevância entre os que se posicionam pela afirmação dos valores democráticos e pela defesa do multilateralismo. Lula se constitui, assim, como o principal antípoda de Trump no cenário internacional. E não é diferente no espaço nacional. Após 40 anos de democracia, o que assistimos no Brasil é uma infeliz emergência de valores autoritários e reacionários amplamente disseminados na sociedade. Está plenamente associada a esse cenário a cruel e muito lamentável epidemia de feminicídio que ora vivenciamos no país. E quem representa, política e eleitoralmente, esses valores autoritários no Brasil é Bolsonaro e o movimento difuso de ultradireita que podemos chamar de “bolsonarismo”, essa expressão do fascismo no Brasil contemporâneo.

É fortemente provável que os Estados Unidos intervenham nas eleições brasileiras desse ano, seja através do seu governo e dos órgãos de inteligência a ele associados, como das suas empresas, particularmente, as big techs. O objetivo dessa intervenção será influenciar os resultados eleitorais em favor das candidaturas da ultradireita, particularmente, à Presidência da República, ao Senado, à Câmara Federal e aos principais governos de estados, nessa ordem. Quem solicita essa interferência, aliás, é o próprio senador Flávio Bolsonaro, virtual candidato do bolsonarismo às eleições presidenciais de 2026, e principal concorrente de Lula. Em encontro da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) – uma espécie de “Internacional Fascista” -, realizado no Texas, no dia 28 de março , Flávio Bolsonaro pediu “pressão diplomática” dos Estados Unidos e do “mundo livre” para as eleições brasileiras de 2026 tenham “valores de origem americana”. Revelando o entreguismo e o espírito de colonizado próprio das elites autoritárias brasileiras, Flávio Bolsonaro ainda afirmou que “o Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”.

Assim, agora, como em 2022, a construção de uma frente ampla democrática e progressista em torno da candidatura presidencial de Lula e dos seus aliados é tarefa fundamental para frear o avanço do fascismo e afirmar a democracia como valor universal e princípio civilizatório.

É tarefa política do Brasil, mas com repercussão mundial.

 

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